Durante uma partida com uma mulher misteriosa, o detetive Akechi embaralha e distribui as cartas do jogo. O espectador assiste à tudo por debaixo da mesa de vidro, sendo capaz de distinguir as cartas antes dos personagens. Assim é o filme Kurotokage (Lagarto Negro), noir nipônico da década de 60; o público está sempre à frente dos segredos.
O filme de Kinji Fukusaku adapta uma peça de Yukio Mishima, esta baseada em um livro de Edogawa Ranpo. Como é típico de roteiros teatrais, Kurotokage investe principalmente nos diálogos e na narração, o que ajuda o filme a estabelecer aquele clima de detetive romantizado.
O universo de Kurotokage é justamente esse: detetives filosóficos que trabalham pela paixão da conquista, ladrões excêntricos de codinomes extravagantes, joias lendárias e uma pitada de surrealismo. Alguns desenvolvimentos são previsíveis ou, como mencionei, revelados com antecedência, o que deixa o filme menos surpreendente. Mesmo assim, há substância o suficiente para uma experiência memorável.
O filme de Fukusaku é também de decisões criativas interessantes; para a personagem Lagarto Negro, ladra homônima do filme, a produção escalou Akihiro Miwa, famoso ator drag queen. Miwa, juntamente com Yukio Mishima e Edogawa Ranpo são figuras notórias no underground japonês, além de artistas que admiro. É possível encontrar o filme no youtube no canal "Data Witch Crimson", com legendas em inglês. Até o momento, não sei de nenhum serviço de streaming que tenha se interessado em disponibilizar.
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